Vanitas :Abstractions to Die For

Celio Braga’s Abstractions to Die For (2011) employ the rhythmical vocabulary of the line. The three sets of works in the exhibition-installation consist of horizontal lines in white or in color. But instead of offering the optical experience of a minimalist work, best viewed from a distance, there is an element that beckons their viewer to get closer. At this moment it gets interesting - the image splits and appears as multiple surfaces. There is a layer underneath the neat minimal plane of lines, something that unsettles, disturbs them from within.
Abstrações do Bonfim and Untitled literally incorporate objects that signify the desire to save or heal the body: wish ribbons with an inscription “Lembrança do Senhor do Bonfim da Bahia” sold at the Church of Senhor do Bonfim in Salvador, and medicine information leaflets sent to the artist by his friends or relatives. Multiple layers of white paint cover over the text on the ribbons and the leaflets, which are spread or stretched to form a canvas-like basis. Only the regular darker lines of text beneath the white surface or tiny black details of the text on the ribbons remain visible. Abstrações para Morrer de Amor/7 Dias is a part on an ongoing work, and consists of set of drawings with thin interrupted horizontal lines drawn with pencil in one color on each sheet. The exhibition space[DR1]  is further framed, or rather interrupted, by lines made of glittery material and finely cut photographs of different skin surfaces.
The white erasures of Abstrações do Bonfim do not exactly obliterate; they are perhaps closer to an operation of mimicry as they resemble the minimal language of abstract painting with its claim of pure visuality. The pieces suspend any visual reference to organic shapes, but remain close to the corporeal. This is then a double operation of subverting minimalist aesthetics, and of inserting a reference to the body, its vulnerability and its desire to be saved. These works remind us of the critical comment on minimalism by Felix Gonzales-Torres whose pieces are intimate monuments of the past presence of a body, desire, life and its waning. Yet, in Abstractions to Die For the corporeal is not precisely a counterpoint to the opticality of the minimal plane, but its very infrastructure. The repetitive rhythm of lines, its cyclic structure, its pulse somehow resists the pure visuality, it is not abstract; it is bodily. The borrowing of minimalist language is also a strategy of approaching the body. The de-saturation of the image could be understood as signifying the movement towards death and fragmentation. The works have the air of testimonies, monuments of those who have passed, or of passing as such. Precisely with the reference to the irreversible passing of time that slowly silences our bodies, they hit the point of convergence with Vanitas painting.
Passing of time usually results in obliterating, slowly erasing the image or the text on a surface. Braga’s works indicate time on yet another level. The horizontal lines in the set Abstractions to Die For/7 Days are result of long process of drawing; a record of the gesture of the hand, more than they are representations of a line, of its fatigue, or its relaxation, a “cardiogram” of the pulse of the concentration of the artist. And this is how they should be read, not as an abstract image, but as a record of the hand, its pulse and gesture.
The operation of erasing the central field of the image is like blinding. It results in producing colorful margins - the traces of the objects wrapped with white paint. The very strategy of keeping, incorporating the erased element resonates with the deconstructionist strategy of writing under erasure that places emphasis on the ambivalence of the erased term. The white erasure is like the white bandage used to bind a wound. It speaks of the desire to wrap, and protect the body; but also to remove from visibility. To erase the text on the medicine leaflets, which usually speak of symptoms and side effects, is a testimony to the pain of those who took those medicines, friends of the artist, a desire to erase it, to take it away.
Braga’s method of creating and working with surfaces on conceptual and visual levels gives his works a distinct tactile quality. In an earlier series Untitled (2005), flowery and organic shapes produced with micro incisions spill on the surface of photographic prints of skin, thus foregrounding the beauty of skin and invite their viewer to think of cutting as related to seeing and its inherent cruelty. The uncanny poetics of organic shapes, somewhere between flowers and organs, speaks of a desire to adorn, of luxury that is so excessive that it defies itself. Georges Bataille said that jewel is determined by loss; it is an economic waste. Braga’s practice of making jewels is one of producing objects that are excessive even as jewels, usually they are not wearable. This gesture of “saving” the jewel even from its practical purpose equals producing an indeterminate object, with no end beyond itself.
But what about the body? It is mortal and vulnerable, in a Vanitas painting skulls and flowers remind us of that.  Flesh and flowers are a crucial part of Braga’s aesthetics. But I do not wish to say that his works are Vanitas images.  They exceed the moralizing message - all that is beautiful passes. They are its inversion – a flower shaped incision on an image of living skin, say - all that passes is beautiful. This is to say that the body is all that there is, and we should carefully hold it. The desire to mark the vulnerability of the body, to wrap it, to transform its skin, to adorn it marks Braga’s work. Abstractions to Die For is a contemporary Vanitas but an erased one. Vanitas
Alena Alexandrova

Vanitas : Abstrações para  Morrer de Amor

A série Abstrações para  Morrer de Amor (2011) de Célio Braga utiliza o vocabulário rítmico da linha. Os três grupos de trabalhos da instalação são compostos de linhas horizontais brancas ou coloridas. Porém, em vez de estabelecer uma distância que privilegia a experiência  ótica comum à obra minimalista, o trabalho convida o espectador a se aproximar. Nessa aproximação algo interessante ocorre: a imagem, antes unificada, irrompe, mostrando ser constituída de múltiplas superfícies. Sob as linhas minimalistas há uma camada que emerge de forma perturbadora e as desalinha.
Abstrações do Bonfim e Sem Título incorporam objetos que simbolizam o desejo de salvar ou de curar o corpo:  fitinhas coloridas com a inscrição “Lembrança do Senhor do Bonfim da Bahia”, e bulas de remédio dadas ao artista por parentes e amigos. Várias camadas de tinta branca cobrem os textos das fitas e bulas, conferindo-lhes o ar de telas apenas esticadas. Sob a superfície esbranquiçada, apenas a sombra da uniformidade das linhas de texto das bulas e os pequenos pontos negros do texto das fitas permanecem visíveis. Abstrações para Morrer de Amor/7 Dias faz parte de uma série de desenhos em curso. Compostos de linhas horizontais feitas com lápis de cor que seguem seu curso mas são interrompidas, os desenhos ainda assim enchem de cor o espaço do papel. O espaço da exposição é delimitado ou, melhor dizendo, interrompido, por linhas feitas com purpurina e fotos de pele delicadamente recortadas.
Em Abstrações do Bonfim, as brancas rasuras não apagam exatamente; talvez se trate de uma forma de mimetismo e não de eliminação, já que elas remetem à linguagem da pintura minimalista e sua pretensão de visualidade pura. As obras não fazem referência direta a formas orgânicas, mas estão estreitamente ligadas ao corpóreo. Temos aqui uma operação dupla, de subversão da estética minimalista e de referência ao corpo, à sua vulnerabilidade e ao seu desejo de ser redimido. Essas obras nos fazem lembrar da leitura crítica do minimalismo feita por Felix Gonzales-Torres, cujos trabalhos são monumentos de uma presença já passada, do desejo, da vida que é vivida mas que também desvanece. A corporalidade na série Abstrações para Morrer de Amor não é, no entanto, um contraponto à ‘opticalidade’ do plano minimalista, mas sua própria infra-estrutura. O ritmo de repetição das linhas, sua estrutura cíclica e seu pulsar resistem a visualidade pura – não se trata de algo abstrato, e sim de algo corpóreo. A apropriação da linguagem minimalista é também uma estratégia de abordar o corpo. O esmaecimento da imagem pode ser interpretado como simbolizando o movimento em direção à morte e à fragmentação. Os trabalhos possuem o ar de testemunhos, monumentos aos que já passaram, ou ao passar em si. E é precisamente na referência ao passar do tempo, que aos poucos silencia nossos corpos, que essa obra ressoa com os quadros de Vanitas.
O passar do tempo costuma ir apagando, aos poucos, a imagem ou o texto que se encontra em uma superfície.  Na obra de Célio Braga o tempo também se manifesta de outra maneira. As linhas horizontais do grupo de desenhos Abstrações para Morrer de Amor/7 Dias são o resultado de um longo processo. Mais do que uma representação, elas são um registro do gesto do artista, do seu cansaço ou descanso; um ‘cardiograma’ que mede seu pulso pelo pulsar de sua concentração. Melhor não interpretar o conjunto de linhas como uma imagem abstrata, mas como um registro da mão, de sua pulsão e de seu gesto.
Rasurar o centro da imagem é como cegar; uma operação que resulta na produção de margens coloridas, em traços dos objetos embrulhados em tinta branca. A própria estratégia de conservar o elemento apagado, incorporando-o, tem ressonância com a estratégia desconstrucionista de ‘escrever sob rasura’, que enfatiza a ambivalência do termo rasurado. A rasura branca é como a atadura branca que enfaixa a ferida; ela fala do desejo de cobrir e proteger o corpo, mas também de encobrir. O ato de rasurar o texto das bulas, que sempre tratam de sintomas e efeitos colaterais, é um reconhecimento da dor daqueles que tomaram os remédios, os amigos do artista, e do desejo de eliminá-la, de se livrar dela.
A maneira como o artista cria e trabalha as superfícies, tanto no nível conceitual como no nível visual, confere à sua obra  uma qualidade tátil peculiar. Em uma série anterior, Untitled (2005), formas florais e orgânicas feitas com incisões minúsculas se derramam na superfície de fotografias de pele. Desse modo, elas fazem aflorar a beleza da pele e convidam o espectador a pensar na crueldade inerente da visão que o cortar revela. A estranha poética das formas orgânicas, que remetem a flores ou órgãos, falam do desejo de adornar, de um luxo tão excessivo   que corre o risco de exceder a si mesmo. Georges Bataille afirmou que a jóia é determinada pelo princípio da perda; ela é um excedente do ponto de vista econômico. Ao fazer jóias, outra vertente de sua produção artística, Braga cria objetos que excedem sua própria condição de jóia, pois muitos não podem ser usados como jóias. Esse gesto de ‘salvar’ a jóia de sua função resulta na produção de um objeto indeterminado, que não possui outro fim além de si mesmo.
E o corpo?  O corpo é mortal e vulnerável; as caveiras e flores presentes nas Vanitas apontam justamente para isso. A carne e as flores são elementos fundamentais da estética do artista. Mas não pretendo dizer que seus trabalhos sejam imagens no estilo Vanitas. Eles excedem a mensagem de fundo moral desse tipo de narrativa, aquela que diz que tudo que é belo passa. Esses trabalhos são, na verdade, uma inversão de tal lógica. Por exemplo, o corte em forma de flor feito sobre a imagem de pele, um corte à flor da pele, afirma que tudo que finda é belo. Isso quer dizer que o corpo é tudo que há, algo com o qual  devemos ter cuidado. O desejo de marcar a vulnerabilidade do corpo, de abrigá-lo, de transformar sua pele e de adorná-lo caracteriza a obra de Célio Braga. Abstrações para Morrer de Amor é uma Vanitas contemporânea, contudo uma que foi rasurada. Vanitas
Alena Alexandrova
Tradução: Dionea Rocha Watt




01. Installation view


02. Untitled (from the series: 'Abstractions to Die for'), 2010
128 x 93 cm
gouache and fragments of photography on medicine information leaflet


04. Untitled (from the series: Abstractions to Die For), 2010
73x42
gouache and fragments of photography on medicine leaflets information


06. Untitled/5 days (from the series: Abstractions do Die for), 2010
30 x 105 cm
pencil and color pencil on paper


Untitled, 2011-fragments of photography, gouache, color pencil and religious ribbons on medicine leaflets, 86 cm x 80 cm


Untitled, 2011-fragments of photography, gouache and acrylic on medicine leaflets, 80 cm x 65 cm (irregular)


Untitled, 2011-color pencil on paper, 70 cm x 65 cm


Untitled, 2011-color pencil on paper, 65 cm x 55 cm


Untitled (Gray Lines), 2010-pencil and color pencil on paper-64 cm x 63 cm