In his exhibition 'Ablutions', at Victor Meirelles Museum, Célio Braga brings together a cluster of works related to different stages of his production. It is the first time they are exhibited in Brazil. Differently of what happens in Europe and the United States, where they are being shown continuously and collected by various institutions such as the Stedelijk Museum in Amsterdam.
This is not a retrospective, but a presentation of a section of an oeuvre  highlighting five phases and significant directions in the last two decades of his practice.
His path has been marked by the ability to redefine and to expand fluidly conventional categories such as photography and sculpture among others. These media are pushed to the limit and beyond, through successive trials and by the employment of unusual materials and craft techniques.
Conceptually he deals with the following topics: the fragility of the body, healing rituals, the irrevocable passage of time, memory, the definitive nature of death, grief and sexuality.
The series of organic abstract objects, 'White Shirts' (2000-2001), was conceived  from donations made by an international network of friends. These pieces, that   resemble surreal chrysalises, were produced when the Aids and its effects were still catastrophically affecting the life and the sexual identity of thousands of people. With the laborious act of sewing and stitching, a universal and formal item of men wardrobe, the artist symbolically wanted to perform an ablution, to touch and protect those who were closest to him.
A similar work in terms of making is the 'Ex-Votos' (2006-2007). However, this group is made up of hybrid fragments executed in china bone sutured with cotton fabric and thread. They are representations of hands, heads, suction cups, medicine bottles and glass domes. From these combination results whimsical artifacts. They seem to belong to a fabulous taxonomy which fuses in a peculiar syncretism the familiar and the strange, the religious belief and the secular faith in the science of medicine.
The set of ‘Whites and Blacks' (2003-2006), in their turn, were produced with felt, glass beads, human hair, thread and silk. With an obsessive and painstaking labour, usual of a jeweler, the artist extracts from these materials lush forms. These singular objects brings to mind fictitious organs and ancient cultic jewels. From its baroque, wrinkly, bodies with holes and cavities scintillates an uncanny eroticism. On closer inspection one is made to hover between the feelings of attraction and uneasiness.
Although his production is mainly carried out manually, it shows at times formal affinities with Minimalism. Nevertheless, like the Cuban artist Félix González-Torres, Braga’s work is laden with personal emotions and biographical aspects. An example is 'Unveil' (2008-2009), a diaphanous curtain made of medicine information leaflets provided by friends. They range from aspirin to drugs for terminal illnesses. Here we have a quadrilateral form of 3m x 3m composed of serial rings worked by hand. It constitutes a patchwork of anonymous vestiges or mementos mori. The absence of any subjective trait makes the curtain a silent witness of all, of our particular health concerns, of our own transience and of the collective struggle for survival.
In his most recent work, ‘Untitled’ (2015), the boundaries of photography are once again extended. Through a rather violent process of material damage, skin images are folded, wrinkled, flaked and perforated indefinitely. These operations give rise to textures analogous to those of skin aging and cutaneous infections. The act of folding leaves on the image a grid relief which is covered with a copious pointillism that resembles a bristle, a shiver, a harmful allergy. The outcome of this handling is a delicate balance between the formless and the geometric.
The sexual ambiguity often present in his works, in their form and components, erodes the immediate markers of gender. They call into question standardized representations and conceptions of sexuality. Thus, it offers a more fluid and polysemic perspective.
The spatial orchestration of highly symbolic works and the act of walking between them complement each other. It is necessary to come nearer to the pieces due to their delicacy and great details . It is via the visitor’s movement that different images and objects come to set a narrative, an intimate and an affective space. Thereby, revealing alternative interrelationships and endless associations.

Hércules Goulart Martins





Brancos (detail), 2003/2004, glass beads, human hair, silk and cotton embroidered on hand-made felt



White Shirts (Installation view), 2000/2001



White Shirts (detail), 2000/2001



White Shirts (detail), 2000/2001



White Shirts, 2000/2001, embroidered white shirt, 38 cm long



White Shirts, 2000/2001, embroidered white shirt, 42 cm long



White Shirts, 2000/2001, embroidered white shirt, 50 cm long



Negros, 2005/2006, glass beads, hair, cotton and silk embroidered on hand-made felt

Negros, 2005/2006, glass beads, hair, cotton and silk embroidered on hand-made felt



Negros, 2005/2006, glass beads, hair, cotton, linen and silk embroidered on hand-made felt


Ex-Votos, 2006/2007, glazed porcelain, threads and textiles



Ex-Votos (detail)



Brancos, 2003/2004, glass beads, hair, cotton, linen and silk embroidered on hand-made felt



Brancos, 2003/2004, glass beads, hair, cotton and silk embroidered on hand-made felt



Unveil (installation view), 2008/2009, medicine information leaflets and clear tape, 300 cm x 300 cm




Unveil (detail), 2008/2009



Untitled, 2015, perforations on C. print, 35 cm x 25 cm



Untitled, 2015, perforations on C. print, 35 cm x 25 cm



Untitled, 2015, perforations on C. print and paper, 50 cm x 25 cm



Em sua exposição individual ‘Abluções’, no Museu Victor Meirelles, em Florianópolis (SC), o artista mineiro Célio Braga reúne, em uma instalação, um conjunto de obras relativas a distintos estágios de sua produção. É a primeira vez que elas são exibidas no Brasil, ao contrário do que acontece na  Europa e nos Estados Unidos, onde, além de serem mostradas continuamente, também integram a coleção permanente de várias instituições, como a do Museu Stedelijk, em Amsterdã. 
Não se trata, aqui, de uma retrospectiva, e sim da apresentação de um número de trabalhos que assinalam cinco fases e direções significativas no percurso do artista, durante as duas últimas décadas. 
Sua trajetória é marcada pela habilidade de redefinir e expandir fluidamente categorias convencionais como a fotografia e a escultura, entre outras. Os suportes empregados são levados ao limite e mais além, mediante sucessivas experimentações e o uso de materiais e técnicas artesanais inusitados. 
Conceitualmente, seu interesse é pautado pelos seguintes tópicos: a fragilidade do corpo, a cura, a passagem irrevogável do tempo, a memória, a natureza definitiva da morte, o luto e a sexualidade. 
A série de objetos orgânico-abstratos ‘Camisas Brancas’ (2000-2001) foi concebida a partir de doações feitas por uma rede de amigos de diversos pontos do mundo. Essas peças, que se assemelham à insólitas crisálidas, foram produzidas enquanto a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) e seus efeitos nefastos continuavam atingindo a vida e a identidade sexual de milhares de pessoas. Com o ato laborioso de coser e pespontar um item universal e formal do vestuário masculino, o artista desejava, simbolicamente, tocar, proteger e abluir aqueles que lhe eram mais próximos. 
Outro trabalho de fatura similar são os ‘Ex-Votos’ (2006-2007). Entretanto, esse grupo se compõe de fragmentos híbridos realizados em porcelana de ossos, e  suturados com tecido de algodão e linha. Entre eles, incluem-se representações de cabeças, mãos, ventosas, frascos de remédios e fálicas redomas. Dessa junção resultaram quiméricos artefatos, uma espécie de taxonomia visual fabulosa, que funde num estranho sincretismo o familiar e o fora do comum, o sentimento religioso e a crença na medicina. 
Já os ‘Brancos e Negros’ (2003-2006) foram elaborados com feltro, contas de vidro, cabelo, linha e seda. À custa de um esmero obsessivo, próprio da ourivesaria, são extraídas desses materiais formas luxuriantes que, envoltas num bordado prodigioso, evocam órgãos fictícios e joias ritualísticas ancestrais. Dos seus corpos barrocos, rugosos, com seus orifícios e cavidades, luz uma eroticidade viva e insondável.
Apesar da produção do artista ser essencialmente efetuada manualmente, ela   demonstra, em alguns momentos, afinidades formais com o Minimalismo. Não obstante, assim como o artista cubano Félix González-Torres, Célio Braga infunde na sua prática emoções pessoais e aspectos biográficos. Um exemplo é ‘Desvelar’ (2008-2009), uma diáfana cortina de anelos feitos com bulas de remédios, fornecidas por amigos, incluindo desde aspirinas a medicamentos para doenças terminais. Tem-se, aqui, o equivalente a um plano quadrilátero de 3m x 3m, composto de inúmeros elementos seriais executados à mão, um patchwork de anônimos vestígios ou mementos mori. A ausência de qualquer traço subjetivo torna a cortina um testemunho silente de todos, das nossas preocupações particulares com a saúde, da nossa transitoriedade e a da luta coletiva pela sobrevivência.
Em seu trabalho mais recente, ‘Sem Título’ (2015), mais uma vez são estendidos os limites da fotografia. Num processo de fragilização material, imagens de pele são dobradas, amassadas, descamadas e perfuradas indefinidamente. Dessas operações são obtidas texturas análogas às do envelhecimento da pele humana e das afecções cutâneas. O ato de dobrar imprime à imagem uma grade. Sobre ela, um pontilhismo copioso se eriça como um arrepio ou uma alergia malsã. Disso resulta uma delicada fusão e um equilíbrio entre dois extremos: o informe e o geométrico. 
A ambigüidade sexual muitas vezes presente na obra do artista, em suas formas e componentes, erode e desafia as pretensas representações hegemônicas de gênero e as concepções dominantes de sexualidade. Deste modo, nos oferece uma perspectiva mais híbrida, fluída e polissêmica.
Com uma carga altamente simbólica, os trabalhos apresentados operam como uma narrativa multidimensional, proporcionando ao público múltiplas leituras e estados de fruição. A orquestração espacial das obras, bem como o ato de caminhar entre elas, suplementam-se. Essas, em virtude da delicadeza e da riqueza de detalhes, requerem uma relação mais intimista e de proximidade. É a partir da locomoção do visitante que distintas imagens e objetos passam a configurar um espaço narrativo e afetivo, revelando, assim, inter-relações complementares e infindáveis associações. 

Hércules Goulart Martins